In The Money #38
#38: The Double Pendulum and the Order of Chaos
Escrevo semanalmente sobre o que está acontecendo no mundo dos investimentos e wealth management no Brasil. Durante o dia, atuo como Especialista Íon Private. À noite, sigo estudando para o CFA Exam Level III, psicologia financeira e aplicações de AI voltadas à assessoria de investimentos. Aos fins de semana, escrevo o In The Money.
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Ah, claro… é sempre bom lembrar:
As opiniões aqui expressas são exclusivamente minhas e não representam as de pessoas, instituições ou organizações com as quais eu possa ou não estar associado, a qualquer título, salvo quando expressamente indicado.
1. The Double Pendulum and the Order of Chaos
Você certamente sabe qual o movimento esperado de um pêndulo, né?
É um conhecimento comum, bem intuitivo… daqueles que parece que a gente já nasce sabendo. Tipo saber o refrão de Evidências.
Mas, como tudo na vida, tem como complicar!
Lhes apresento o pêndulo duplo. Basicamente é a mesma estrutura, porém com um pequeno detalhe: dessa vez ele tem um segundo braço pendurado na ponta, ligado por uma articulação que se mexe livremente.
Veja que uma mudança mínima na posição inicial pode gerar movimentos completamente diferentes poucos segundos depois. Algo que parece invisível no começo do experimento acaba mudando totalmente o comportamento do sistema durante o movimento contínuo.
O nome chique para esse comportamento é caos determinístico.
Vale o parênteses rápido. Aleatório é não ter regra. Caos determinístico é ter regra e ainda assim ninguém conseguir prever o resultado. Foi por essa porta que Benoît Mandelbrot, pai da geometria fractal, entrou no mundo das finanças. Vamos voltar nele.
E é aqui que o assunto deixa de ser apenas mais uma curiosidade de física e vira um problema seu.
O mundo dos investimentos tem exatamente a mesma natureza de um pêndulo duplo. São variáveis que se puxam o tempo todo, agentes que reagem ao movimento uns dos outros (a lá Teoria dos Jogos), e que acabam resultando em um jogo impossível de modelar. Não se iluda. Não existe nenhum tipo de modelo matemático que consiga prever o comportamento do preço dos ativos. Por mais que pareça!
Pensa nos últimos anos comigo…
Março de 2020. COVID, lockdown global, mercados em queda livre. Ninguém viu vindo nem o tombo nem a velocidade da recuperação.
Final de 2024. Euforia generalizada com o risco fiscal brasileiro, dólar batendo recordes, todo mundo dando o real como caso perdido… Resultado de 2025? Dólar fechou em -10,79%, como mostrei no ITM #19.
Pico da guerra entre Irã e EUA. O ouro deveria explodir como hedge geopolítico clássico. Desabou.
Três movimentos do pêndulo. Três vezes em que o segundo braço girou pro lado oposto do que a maioria esperava.
E aqui mora uma parte que vale parar pra absorver. No primeiro momento, o mercado parece previsível. Assim como o pêndulo duplo parece previsível nos primeiros segundos!
Você olha o gráfico de uma semana, parece ter padrão lógico. Olha aquele fundo multimercado, parece que '“está se recuperando”. O dólar? Acabou de bater na média de 200, deve subir!
Reconhece esse raciocínio? Eu também! É o convite para cair nos mais diversos vieses comportamentais possíveis.
Acontece que a nossa cabeça não foi feita pra conviver com um sistema imprevisível. Ela precisa de padrão. De causa e efeito. De uma história que faça sentido, mesmo quando a história não exista.
E pra dar conta dessa missão impossível, o cérebro recorre a uns atalhos. Atalhos que, até então, parecem inocentes.
Enquanto o segundo braço gira sem pedir licença, o seu cérebro está lá ocupado tentando criar padrões e fabricando três mentiras para te convencer de que entende o movimento. Geralmente eles aparecem nessa ordem:
Illusion of control → Outcome bias → Hindsight bias
Vamos começar pelo Illusion of control. A sensação de que você está no comando só porque está agindo. O fato de você ter feito alguma coisa cria a impressão de que aquela ação influenciou o resultado. Posso ser sincero? Não influenciou…
Aqui, você não está controlando apenas as suas ações. Você também está controlando fatores externos. Ou pelo menos é assim dentro da sua cabeça.
Se você porventura acabar acertando o call, mesmo que pelos motivos errados, nós partimos para o segundo estágio: o Outcome bias.
Aqui, basicamente temos a tentação de avaliar a decisão pelo resultado, e não pelo raciocínio que a produziu.
Deu certo → foi sua habilidade.
Deu errado → foi azar de mercado.
Estatisticamente terrível mas funcionou → visionário, gênio do mercado.
Brilhante mas deu ruim → precisamos revisar o processo de decisão.
Avançando um pouco mais na linha do tempo chegamos no Hindsight bias. Aqui é onde encontramos os reis do storytelling…
Depois que o pêndulo já passou, você reconstrói a história como se tudo fosse óbvio. De trás pra frente faz mais sentido, né?
“Claro que ia subir.”
“Era inevitável.”
“Faz sentido.”
A sua memória edita o roteiro pra encaixar com o final. E o pior é que isso parece aprendizado. Você sai do evento achando que entendeu, sendo que só reorganizou os fatos para fazer sentido, já sabendo o final.
Pega 2025 como exemplo. Quando começou, ninguém no seu escritório estava cravando IBOV +33%, ouro +72%, dólar -10%. Agora pergunte sobre isso hoje e veja as histórias se formarem.
O grande problema é que esses e outros vieses estão conectados e se retroalimentando dentro do nosso Sistema 1.
Você acha que controla o resultado → dá certo → atribui à habilidade, mérito 100% seu → reescreve a história de trás pra frente, reforçando a tese → próxima decisão acha que controla ainda mais, o Warren Buffett em pessoa.
Se nós, profissionais do mercado, estamos suscetíveis a esses vieses, quem dirá o investidor médio que está sendo cada vez mais bombardeado de informação e estímulos para agir.
E é justamente aqui que o assessor humano se torna insubstituível e nenhuma IA irá conseguir assumir esse papel. Lembra do Decision-Reversal Risk que destrinchei no ITM #29? Se você não leu essa edição, pausa rapidinho aqui e vai lá dar uma conferida. Você não vai se arrepender.
Enfim, continuando… O assessor é como se fosse o guardião do portal para o decision-reversal risk.
Se o cliente agir sem consultá-lo, provavelmente estará caindo nesse risco sem perceber. Inclusive, em muitas situações, a decisão de resgate pesa mais do que o momento de entrada ou até do que o próprio ativo escolhido. Acha que está “corrigindo o rumo” mas na verdade está deixando a distribuição de retorno com a skew cada vez mais negativa.
E, para o cliente, pode parecer lógico consultar essa decisão direto com a IA. É prático, não tem conflito e provavelmente vai falar exatamente o que ele quer ouvir…
Mas tem um detalhe que muita gente esquece.
A IA, para essa finalidade, é uma fábrica de médias. Ela responde com base em consenso… e boa parte desse consenso vem de fóruns como Reddit e X, onde o loop dos três vieses que mencionamos mais cedo está bombando. O cliente vai consultar um espelho coletivo dos mesmos vieses que ele está tentando evitar.
Por isso que o assessor humano que se mostra presente nas horas mais difíceis é o que mais gera valor para o cliente. Às vezes sem ao menos perceber…
Se você não conferiu a última edição do In The Money #37, não deixe de clicar no link abaixo.
Nos vemos no próximo domingo!









