In The Money #45
#45: Fundos Soberanos: A Lição Bilionária da Noruega
Escrevo semanalmente sobre o que está acontecendo no mundo dos investimentos e wealth management no Brasil. Durante o dia, atuo como Especialista Íon Private. À noite, sigo estudando para o CFA Exam Level III, psicologia financeira e aplicações de AI voltadas à assessoria de investimentos. Aos fins de semana, escrevo o In The Money.
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Ah, claro… é sempre bom lembrar:
As opiniões aqui expressas são exclusivamente minhas e não representam as de pessoas, instituições ou organizações com as quais eu possa ou não estar associado, a qualquer título, salvo quando expressamente indicado.
1. Fundos Soberanos: A Lição Bilionária da Noruega
Tem uma parte do currículo do CFA Level III dedicada a Institutional Investors. Fundos de pensão, endowments, seguradoras… e uma categoria que quase não se fala por aqui: os Sovereign Wealth Funds.
Hoje às 17h tem Brasil X Noruega pela Copa do Mundo e, do outro lado do campo, está simplesmente o país que é dono do maior fundo soberano do planeta!
Então enquanto o time esquenta e a churrasqueira ainda não está trabalhando, bora conhecer o adversário do Brasil fora das quatro linhas.
O Adversário Trilionário
Vamos começar do básico e explicar o que é um fundo soberano… Basicamente, um fundo soberano é um veículo de investimento do próprio Estado. O governo pega um excedente de riqueza e transforma em portfólio. No caso da Noruega, esse excedente vem de um lugar só: a fatia do Estado nas receitas de petróleo e gás do Mar do Norte.
O nome oficial é Government Pension Fund Global e os números são bem chocantes...
No fim de 2025, o fundo valia 21.268 bilhões de coroas norueguesas, o que representa algo como US$ 2,2 trilhões.
Para um país de 5,5 milhões de habitantes, isso dá mais de US$ 400 mil por norueguês… bebês inclusos.
Outro dado que mostra a magnitude do tamanho do fundo é a exposição global dele no mercado de equity. O fundo simplesmente é dono, em média, de 1,5% de todas as ações listadas do mundo!
São mais de 7.200 empresas, em 60 países. Quando você compra Nvidia, Apple ou Microsoft, tem um pedacinho da Noruega sentado na mesma mesa que você. Um fundo que nasceu do petróleo virou o maior acionista pulverizado do planeta.
O Paradoxo da Abundância
Agora que você já sabe o tamanho da fera, vem a pergunta que interessa… como é que um país pequeno e frio no norte da Europa construiu isso? 🤔
Na verdade, a origem da história se dá antes até de acharem o petróleo. Nos anos 60, o governo norueguês reivindicou soberania sobre a plataforma continental do Mar do Norte. Ou seja, o DNA de “isso aqui é do Estado, e o Estado vai controlar” já estava lá antes de existir a primeira gota.
Aí, na véspera do Natal de 1969, veio o telefonema… acharam petróleo. E muito!!
Só que nos anos 70, a Noruega quase estragou tudo. Dinheiro fácil entrando rápido demais, gasto público inflando, produtividade caindo… É o roteiro clássico da Dutch Disease, quando uma commodity abundante valoriza o câmbio, sufoca os outros setores e deixa o país refém de uma coisa só.
Dutch Disease é o termo utilizado quando a descoberta de uma commodity valiosa acaba prejudicando o resto da economia. O nome vem da Holanda dos anos 60, que achou gás natural e viu a moeda disparar. Câmbio valorizado barateou importações e sufocou a indústria local, que perdeu competitividade. O país fica refém de um recurso só e desmonta tudo que produzia antes.
Muito país que passou por uma situação parecida parou por aí. Gastou tudo, viveu o boom e amargou a ressaca.
A Noruega fez diferente. Em 1983, um comitê liderado por Hermod Skånland (ex-presidente do banco central) chegou a uma conclusão simples e poderosa: o país deveria poupar a riqueza do petróleo e gastar apenas o retorno que ela gera, nunca o principal.
Em 1990, isso virou lei. O fundo estava criado.
Mas tem um detalhe bem curioso… o fundo ficou vazio por seis anos. A primeira transferência de dinheiro só veio em 1996, e foi de meros 2 bilhões de coroas. Se formos comparar com os 21 trilhões de hoje, é basicamente nada né?
O petróleo abriu a porta, mas o que construiu o gigante que conhecemos hoje foi a decisão de não torrar a herança.
Quem Controla o Dinheiro
Beleza, o fundo existe e tá cheio de dinheiro. Mas aí vem uma pergunta que todo brasileiro faz na hora… quem controla essa fortuna toda? 🤔
E é aqui que o currículo do CFA Level III que estou estudando e a prática se encontram bonito.
Quando o CFA fala de governança de fundo soberano, ele desenha um mapa de stakeholders que se repete em qualquer SWF do mundo… são eles:
Os cidadãos atuais e futuros como beneficiários finais;
O governo como patrocinador;
O board com dever fiduciário para com esses cidadãos;
O braço de gestão que executa os investimentos.
No papel, é isso. Na Noruega, cada uma dessas caixas tem nome e sobrenome.
O beneficiário final é o povo norueguês. O fundo pertence às gerações de hoje e às que ainda nem nasceram. Não é do governo de plantão, não é de um partido… É do país!
O governo, via Ministério das Finanças, é quem responde pelo fundo em nome do povo. Define a estratégia, o benchmark, os limites de risco e presta contas ao Parlamento. É o dono no sentido operacional, mas com a rédea curta da prestação de contas.
O gestor é o Norges Bank, o banco central norueguês, que recebe o mandato do Ministério pra tocar o fundo. E dentro dele fica o NBIM (Norges Bank Investment Management), o braço que executa de fato… compra, vende, decide alocação e exerce o direito de voto nas mais de 7.200 empresas do portfólio.
Fechando o mapa, um Conselho de Ética independente avalia se as empresas investidas cumprem as diretrizes e recomenda exclusões… tabaco, armas, violação de direitos humanos e por aí vai.
Repara que o CFA insiste num ponto ao falar desses fundos: proteger o patrimônio da interferência política. E é exatamente aí que a Noruega dá aula!
O governo não pode enfiar a mão no principal. Existe uma regra fiscal que permite sacar apenas o retorno real esperado do fundo, algo em torno de 3% ao ano (era 4% até 2017). O petróleo é da geração de hoje, mas o patrimônio fica de pé pras próximas.
Blindar o dinheiro dos políticos talvez tenha sido o melhor investimento que a Noruega já fez!
THE NORWAY MODEL
Aqui vem a parte que mais me pegou no estudo…
O currículo do CFA Level III apresenta quatro grandes modelos de investidor institucional, onde cada um leva o nome de quem o consagrou. O modelo da Noruega é um deles…
O Norway Model se apoia em quatro pilares:
Quase tudo em ações e renda fixa listadas, geralmente algo entre 60/40.
Gestão majoritariamente passiva, colada num benchmark, com pouquíssimo espaço para aposta ativa;
Custo baixíssimo, algo entre 8 e 14 bps ao ano;
Transparência quase radical e governança simples de supervisionar.
Repara na composição que você viu lá no começo… 71,3% em ações, 26,5% em renda fixa. Quase nada em alternativos. O maior fundo do mundo é, no fundo, um indexador gigante e barato.
⬇️ Olha esse gráfico aqui abaixo ⬇️
A parte azul é retorno acumulado e a escura são os aportes do petróleo. Repara como o retorno vai comendo o gráfico ano após ano… mais da metade do valor do fundo hoje não veio do petróleo. Veio de deixar o dinheiro trabalhar, de forma disciplinada, por quase três décadas.
Mas isso não quer dizer que eles descobriram o segredo do mercado e que é o único “jeito certo de investir”…
Pra você ter uma ideia, existe um modelo que prega exatamente o contrário e é tido como outra referência no mundo dos investimentos. Estou falando do Endowment Model, o famoso modelo Yale. Esse é o do glamour… alocação pesada em private equity, hedge funds, ativos ilíquidos, gestão ativa, tudo terceirizado para gestores caros e difíceis de escolher.
Os dois funcionam… Yale entregou retornos lendários por décadas. Mas são filosofias opostas de como gerir alguns bilhões. Cada um no seu quadrado
E é isso…
Você já conhecia a história do Norway Model? Ou está descobrindo só agora que o adversário de hoje é esse gigante “silencioso” dos investimentos?
Me conta nos comentários. 👇
Dito isso, hoje é Brasil 3x1!
Se você não conferiu a última edição do In The Money #44, não deixe de clicar no link abaixo.
Nos vemos no próximo domingo!










Não conhecia Raphael. Mas fiquei impressionado com sua explanação. Tem como investir nesse fundo? Me desculpe se deixei passar algo pela pergunta
Que aula, irmão!