In The Money #40
#40: UBS Global Family Office Report 2026
Escrevo semanalmente sobre o que está acontecendo no mundo dos investimentos e wealth management no Brasil. Durante o dia, atuo como Especialista Íon Private. À noite, sigo estudando para o CFA Exam Level III, psicologia financeira e aplicações de AI voltadas à assessoria de investimentos. Aos fins de semana, escrevo o In The Money.
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Ah, claro… é sempre bom lembrar:
As opiniões aqui expressas são exclusivamente minhas e não representam as de pessoas, instituições ou organizações com as quais eu possa ou não estar associado, a qualquer título, salvo quando expressamente indicado.
1. UBS Global Family Office Report 2026
Essa semana tivemos mais um gigante do mercado compartilhando a sua pesquisa anual sobre a indústria de wealth management. Quem acompanha o In The Money sabe que esse é um dos formatos mais recorrentes por aqui. Olha só o que já abordamos:
Bom, dessa vez vamos falar do relatório do UBS. E esse relatório tem algumas características interessantes..
É a sétima edição do Global Family Office Report, o que faz dele a série mais longa entre os grandes reports de FOs! A amostra contém 307 family offices entrevistados entre janeiro e março de 2026 (baixo lagged information!), espalhados por mais de 30 mercados e com AuM médio de US$ 1.3 bilhão.
O relatório falou de tudo um pouco, passando por risco, Strategic Asset Allocation (SAA), moedas, alocação regional, temas do hype como AI e crypto, custos operacionais, governança e sucessão.
Um número resume bem o tom do que está por vir: 60% dos FOs planejam alterar a alocação estratégica (SAA) nos próximos 12 meses! Esse é o maior percentual já registrado na série histórica. Em 2024, eram 27%. Em 2025, 35%. Agora, 60%.
The Great Rebalancing
A pergunta natural é: o que está fazendo 6 em cada 10 FOs mexerem na alocação ao mesmo tempo?
A resposta curta: o mapa de riscos mudou. Conflito geopolítico aparece como preocupação número um tanto no curto prazo (64%) quanto no horizonte de cinco anos (61%). E a percepção de que esse risco vai persistir é o ponto importante aqui. Os alocadores não estão tratando mais geopolítica como um evento passageiro.
Em outras palavras, o Tactical Asset Allocation está virando Strategic Asset Allocation
Outro dado que cresceu bastante comparado com edições anteriores foi em relação ao nível das dívidas soberanas. No curto prazo, 31% citam como risco. Em cinco anos, esse número salta para 56%. O tema de recessão global segue o mesmo caminho: 17% no curto prazo, 50% em cinco anos.
Enquanto isso, guerra comercial e tarifas perdem força no horizonte longo (de 49% para 36%). Isso nos leva a crer que os FOs enxergam o tema tarifário como conjuntural e os riscos fiscais e geopolíticos como estruturais.
E como isso se traduz em alocação? 🤔
Basicamente, o portfólio médio global terminou o ano de 2025 dessa forma:
58% em ativos tradicionais
Equities: 32%;
Fixed Income: 17%;
Cash: 9%;
42% em alternativos
Private Equity/Credit: 20%;
Real Estate: 11%;
Hedge Funds: 6%;
Gold/Precious Metals: 2%;
Commodities: 1%;
Infrastructure: 1%;
Art and Antiques: 1%
Entrando mais a fundo nas sub-classes, DM Equities continuam como âncora principal, com 27% da alocação. Mas o que é realmente interessante são os ajustes planejados para 2026:
Real Estate: caindo de 11% para 8% (a maior retração entre as classes);
Ouro subindo de 2% para 3%;
EM Equities ganhando tração modesta, de 5% para 6%.
O ouro merece um destaque aqui. É a primeira vez que a pesquisa pergunta especificamente sobre ele separado da categoria de metais preciosos. E a resposta veio bem em linha com as principais preocupações já tratadas no bloco acima. Em um Mundo onde a trajetória da dívida global, conflitos geopolíticos e inflação mais alta são temas centrais das conversas, faz sentido esse aumento de share em carteira.
Olhando aqui para a nossa América Latina, 61% dos FOs planejam mudanças no SAA, um pouco acima da média global. O portfólio latino americano tem perfil próprio:
66% em Ativos Tradicionais | 34% em Alternativos;
29% em Fixed Income (quase o dobro do global de 17%);
16% em Private Equity (abaixo do global de 17%);
Repare que PE representa quase a metade da classe de Alternativos
The Dollar Question
O segundo grande tema que merece atenção é o dólar americano.
65% dos FOs esperam que a confiança no dólar como moeda de reserva enfraqueça nos próximos 12 meses. Apenas 6% esperam uma melhora.
Isso se conecta com tudo que vimos no bloco anterior. A preocupação com dívida soberana, conflitos geopolíticos e inflação persistente está fazendo os alocadores repensarem a concentração cambial dos seus portfólios. Hoje, 47% se consideram sobrealocados ao dólar, de longe a moeda com maior desconforto entre todas as pesquisadas.
E o que estão fazendo a respeito? Vamos aos dados:
29% já reduziram ou estão considerando reduzir exposição a ativos denominados em USD;
30% aumentaram ou planejam aumentar diversificação entre múltiplas moedas;
21% mantêm ou consideram manter reservas de caixa em várias moedas;
Franco suíço e euro aparecem como as moedas preferidas de diversificação.
Um contraste que vale a pena observar: 67% dos FOs americanos declararam que não estão tomando nenhuma ação de gestão de risco cambial. Contra 28% da média global. O home bias americano no câmbio é quase absoluto.
Olhando aqui para a nossa América Latina novamente, 55% dos FOs esperam queda na confiança do dólar (um pouco abaixo dos 65% globais) e 24% reduziram ou consideram reduzir exposição.
Uma curiosidade para o nosso contexto tupiniquim... Enquanto uma parte relevante das carteiras brasileiras ainda está 100% em BRL e a conversa do dia a dia é sobre dolarizar uma parcela do patrimônio, os maiores alocadores do mundo já estão na segunda derivada: diversificando do dólar para outras moedas fortes como franco suíço e euro. Estágios bem diferentes de uma mesma jornada.
AI: FOMO vs. Prudence
Se existe um tema que domina a conversa entre os FOs globais, é AI.
65% já estão alocados, tornando inteligência artificial o tema de investimento número um, disparado. Os próximos da lista ficam bem atrás:
Power and resources: 37%
Infrastructure: 37%
AI in healthcare: 33%
Defense and security: 29%
Automation and robotics: 28%
O que chama atenção é como essa alocação em AI está se espalhando pelas diferentes camadas do setor. Os FOs não estão simplesmente comprando ações de tech via ETF. Estão entrando em data centers, empresas de software, semicondutores e aplicações específicas de nicho como healthcare. A ideia é capturar a tese em múltiplas camadas, sem concentrar tudo num pedaço só da cadeia.
E essa tal de bolha? será que existe? 🤔
Os FOs dos Estados Unidos ficaram em cima do muro…
Apenas 5% cravaram que sim, existe uma bolha;
71% responderam como talvez;
24% responderam que não.
Mesmo com essa incerteza, a grande maioria planeja manter ou aumentar a exposição. FOMO e prudência convivendo no mesmo portfólio, lado a lado.
Sobre cripto, o relatório confirma o que muitos já imaginam: continua nicho.
76% dos FOs não investem e, entre os 24% que investem, a alocação típica é de ~1%. Dessa pequena parcela que já investe, 44% já tratam cripto como parte do SAA e a custódia é predominantemente institucional (bancos globais e prime brokers).
The Succession Gap
Até aqui falamos de alocação, moedas e temas de investimento. Mas o UBS reserva um espaço inteiro do relatório para um tema que costuma ficar em segundo plano nas conversas do mercado: sucessão.
Esse, na minha opinião, é o ponto mais frágil dos FOs globais e de qualquer escritório de investimento.
Vamos aos dados…
57% das famílias já têm algum plano de sucessão, um certo avanço em relação às edições anteriores. Porém, apenas 35% têm um plano de sucessão para o family office em si. Ou seja, quem vai tocar a operação, manter a equipe, preservar os processos...
Focando mais na preparação do herdeiro, somente 27% têm um processo estruturado para educar e preparar a próxima geração.
Sobre o envolvimento dos herdeiros, o cenário é o seguinte:
13% estão totalmente envolvidos;
32% parcialmente envolvidos;
32% ainda são jovens demais;
21% têm idade suficiente para participar, mas estão completamente de fora.
Esse último grupo é o que mais preocupa. O consenso entre os FOs é que a faixa de 30 a 39 anos é a ideal para começar a engajar a próxima geração nas decisões, enquanto a faixa de 18 a 29 para preparar e educar. Mesmo assim, um em cada cinco herdeiros que já poderiam estar participando simplesmente não estão.
Será que o afastamento dos herdeiros é mesmo desinteresse? Ou será que falta dar espaço, contexto e autonomia para que eles queiram participar? Se o herdeiro não entende o que está em jogo e não tem espaço para participar, por que se envolveria?
US$ 83 trilhões em patrimônio serão transferidos entre gerações nos próximos 20 anos. Esse número não é novidade pra gente…
Quem leu o ITM #34 (Next Gen, Already Here) vai lembrar que a Cerulli Associates estima que 90% dos investidores americanos nem consideram seguir com os advisors dos pais. Junta isso com os dados da UBS mostrando que apenas 27% dos FOs têm um processo estruturado de preparação da próxima geração, e o cenário fica claro.
O patrimônio irá mudar de mãos nos próximos 20 anos. A pergunta é se o assessor que atende a família hoje vai continuar atendendo amanhã.
My Personal Takeaway
Os FOs bilionários estão recalibrando alocação, diversificando moedas, refinando exposição a AI… E muitos desses movimentos são mudanças no SAA que tendem a permanecer por um tempo. Toda essa mudança de alocação gera um fluxo de uma classe para outra, que pode certamente impactar a precificação dos ativos. Isso definitivamente é algo para você levar desse relatório.
Eles também estão, assim como a gente, tentando, com uma certa dificuldade, preparar a próxima geração. Seja com conhecimento, aproximando o relacionamento ou trazendo mais para perto da tomada de decisão. Nesse tema, estamos todos no mesmo barco… Enquanto no discurso parece simples, é uma tarefa extremamente complexa de se executar na prática.
Você deveria sair desse relatório com a sensação de que o nível da conversa está subindo... Relatórios como esse servem pra calibrar o seu repertório. Pra entender o que o dinheiro institucional está fazendo e traduzir isso pro contexto dos seus clientes. Quanto mais você lê, melhor fica a qualidade da conversa que você oferece na ponta.
O dinheiro mais paciente do mundo está se mexendo. Vale prestar atenção.
Se você não conferiu a última edição do In The Money #39, não deixe de clicar no link abaixo.
Nos vemos no próximo domingo!










