In The Money #48
#48 Janelas Móveis: A Experiência Real do Investidor | Gestão Ativa: O Placar Que Ninguém Emoldura
Escrevo semanalmente sobre o que está acontecendo no mundo dos investimentos e wealth management no Brasil. Durante o dia, atuo como Especialista Íon Private. À noite, sigo estudando para o CFA Exam Level III, psicologia financeira e aplicações de AI voltadas à assessoria de investimentos. Aos fins de semana, escrevo o In The Money.
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Ah, claro… é sempre bom lembrar:
As opiniões aqui expressas são exclusivamente minhas e não representam as de pessoas, instituições ou organizações com as quais eu possa ou não estar associado, a qualquer título, salvo quando expressamente indicado.
Antes de iniciar essa edição, quero esclarecer algo que ouvi ao longo da semana passada…
Uma pessoa próxima me vez o seguinte questionamento:
“Os seus textos não tem cara de IA, como você faz?”
Bom… a resposta é mais simples do que parece: Eu simplesmente escrevo os meus próprios textos!
Pode parecer perda de tempo escrever do zero o próprio texto quando se tem a IA para montar uma estrutura completa. Eu discordo completamente e é exatamente por isso que eu escrevo aqui no Substack e não no Linkedin!
O Linkedin chegou em um ponto onde, além dos posts, agora até os comentários estão dominados por escritas de IA.
“Não é sobre X, é sobre Y”;
“E isso muda tudo”;
“Mais do que X, é preciso Y”;
Faça um experimento social e tente achar um post no Linkedin sem ao menos uma dessas estruturadas. (Claro, depois de ler essa edição, rs)
Eu utilizo sim IA, mas como um editor-chefe, para pegar alguns erros que eu possa ter deixado passar… Volta e meia eu esqueço alguma vírgula, erro uma crase, pulo um artigo, enfim…
Semana passada o Substack adicionou um ferramenta interessante que quero compartilhar com vocês:
Sem mais delongas, vamos para a edição #48!
1. Janelas Móveis: A Experiência Real do Investidor
Qual é a primeira informação que você olha em um fundo de investimento? Se a minha bola de cristal estiver correta, você está pensando em rentabilidade passada.
Mas convenhamos… não poderia ser diferente, né?! A rentabilidade, principalmente de 12 meses, nos é dada de maneira tão fácil. Seja no App do banco/corretora, na lâmina do fundo ou nas apresentações semanais das assets.
Infelizmente o investidor comum tende a parar a sua análise por aí, chegando até a filtrar no App do maior para o menor as rentabilidades dos últimos 12 meses dos fundos disponíveis. Arrisco dizer que muitos assessores também utilizam deste discurso para tentar captar ou reter recursos.
“Vamos alocar neste fundo porque está rendendo mais”
Esse tipo de frase me causa arrepios. Afinal, como podemos utilizar o gerúndio (que indica uma ação contínua) se a rentabilidade passada não implica na rentabilidade futura?
E outra: a rentabilidade dos últimos 12 meses não implica necessariamente na experiência real do investidor que está naquele fundo. Uma forma de nos aproximarmos desta experiência seria avaliarmos a rentabilidade por janelas móveis.
Vamos pegar o Gávea Macro MM Seleção FIC FI como exemplo, onde temos um histórico desde dez/2016 para analisarmos, CNPJ: 25.682.163/0001-22.
Se formos analisar estaticamente a rentabilidade passada, teremos:
12 meses: 51,3% do CDI
24 meses: 48,0% do CDI
36 meses: 49,5% do CDI
Desde o início: 90,1% do CDI
Se o investidor só possui estas informações para a tomada de decisão, a conclusão parece óbvia. Fundo pra riscar da lista, certo?
Pois bem… vamos utilizar agora o conceito de janelas móveis, onde iremos inferir por quanto tempo o fundo rendeu ao menos o CDI, deslizando a janela dia a dia:
Janela móvel de 12 meses: 51% do tempo acima do CDI
Janela móvel de 24 meses: 61% do tempo acima do CDI
Janela móvel de 36 meses: 63% do tempo acima do CDI
Janela móvel de 48 meses: 74% do tempo acima do CDI
Janela móvel de 60 meses: 75% do tempo acima do CDI
Veja que o período que mais prejudica a avaliação do fundo é recente, a partir de 2024. É aí que precisamos sair da análise quantitativa e ir para a qualitativa. Será que os processos internos mudaram? A gestão continua com a mesma equipe? Os incentivos mudaram? A gestora está com outro foco?
Observação: Todas essas janelas foram calculadas em segundos pelo Ben, meu assistente pessoal. A desculpa de "não tenho os dados estruturados para apresentar ao meu cliente" morreu. Quem incorporar ferramentas de IA no dia a dia, mesmo que sejam modelos proprietários, vai conseguir entregar um trabalho muito mais completo!
Outro ponto que merece destaque: você conhece algum cliente que aporta no fundo quando o histórico de rentabilidade está ruim? Pois é… é raro de encontrar!
Geralmente ele espera a “foto” ficar boa para investir, o que tende a piorar a experiência do cliente. É exatamente por isso que o Money-Weighted Return (MWR) costuma ser inferior ao Time-Weighted Return (TWR).
A janela móvel é justamente a ponte entre esses dois mundos. Ela pega o retorno do fundo e recalcula pra cada data de entrada possível, dia a dia. Continua sendo TWR… mas agora respondendo a pergunta que o seu cliente realmente faz. "E se eu tivesse entrado em outro momento?"
Claro, quanto maior o tempo investido, maior a frequência de sucesso. Aqui, de 51% em 12 meses para 75% em 60 meses. Porém, sabemos que a tolerância do investidor em ficar abaixo do CDI por 12 ou 24 meses é bem baixa. Normalmente, vemos o movimento de migração para o fundo que "está rendendo mais".
E o ciclo vicioso começa novamente…
2. Gestão Ativa: O Placar Que Ninguém Emoldura
O debate sobre Gestão Ativa X Gestão Passiva é antigo. Porém, a cada ano que passa o tema está ganhando mais espaço nas mídias tradicionais e não tradicionais.
A premissa da gestão ativa é simples: o investidor delega seu patrimônio para um gestor mais habilidoso, paga uma taxa de administração pelo serviço e, em troca, deveria receber um retorno superior a um determinado benchmark. Mas, ano após ano, os dados têm colocado essa crença à prova.
O avanço dos fundos passivos e ETFs transformou essa discussão em uma das mais importantes do mercado. Agora, a discussão não é mais apenas sobre performance, mas também sobre eficiência, custo e consistência.
Para ajudar o debate, quero apresentar neste tópico o SPIVA Scorecard.
O SPIVA é um relatório global publicado pela S&P Dow Jones Indices, que mede a performance de fundos de gestão ativa contra seus respectivos benchmarks em diferentes horizontes de tempo, países e classes de ativos. Além disso, o estudo também ajusta os resultados para o viés de sobrevivência, ponderando retornos pelos ativos sob gestão e compara cada fundo com o índice apropriado à sua categoria, evitando distorções comuns.
Um breve parêntese sobre esse viés de sobrevivência, com dado do próprio estudo. Em apenas um ano, cerca de 1 em cada 10 fundos de ações brasileiros deixou de existir! Dos 440 fundos da categoria mais ampla, 89% sobreviveram ao período.
Já em um período de 10 anos, o número de sobreviventes cai para apenas 43%.
Isso diz muito sobre a indústria de fundos brasileira…
No longo prazo, o SPIVA mostra que superar o benchmark é possível, mas permanecer acima dele é raro. Poucos gestores conseguem replicar o feito em períodos consecutivos, o que reforça a linha tênue entre habilidade e sorte.
Distinguir entre habilidade e sorte quando se avalia retornos de fundos é um tema que o currículo de CFA Level III gasta bastante tempo. Se quiserem, posso trazer uma edição sobre esse tópico.
⬇️ Comentem aqui abaixo se faz sentido. ⬇️
No Brasil, a edição de 2025 do scorecard trouxe um enredo curioso…
O ano foi excelente para a bolsa, com o S&P Brazil BMI subindo 32,2%! E os gestores aproveitaram bem! Apenas 35,6% dos fundos ativos de large caps perderam para seu respectivo benchmark no ano. A maioria bateu o índice!
Uma ótima foto, né?!
Agora estique a régua para 10 anos e veja a magia acontecer…
Nessa janela, 80,5% dos fundos de large caps perderam do benchmark!
Nos fundos de small e mid caps, a lógica segue a mesma: 84,85% pederam para o benchmark.
E se você acha que a renda fixa escapa… melhor repensar essa intuição!
Em 2025, aproximadamente 87% dos fundos ativos de títulos públicos e 83% dos de crédito privado perderam para os seus benchmarks.
Aqui acontece algo curioso que entre 3-5 anos o número de perdedores cai drasticamente. Sinceramente, não sei o que pode ter acontecido. Se você souber e quiser compartilhar, comente aqui embaixo.
Esse tipo de análise precisa fazer parte da sua rotina de aprendizado. Antes de realizar qualquer alocação na carteira do seu cliente, vale a pena se fazer a pergunta que o SPIVA deixa no ar. Habilidade ou sorte?
Se você não conferiu a última edição do In The Money #47 - Exposição à AI: A Sua Profissão Está no Ranking?, não deixe de clicar no link abaixo.
Nos vemos no próximo domingo!


















